segunda-feira, 4 de abril de 2016

Domingo da Divina Misericórdia


Homilia do Papa Francisco

«Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro» (Jo 20, 30). O Evangelho é o livro da misericórdia de Deus, que havemos de ler e reler, porque tudo o que Jesus disse e fez é expressão da misericórdia do Pai. Nem tudo, porém, foi escrito; o Evangelho da misericórdia permanece um livro aberto, onde se há de continuar a escrever os sinais dos discípulos de Cristo, gestos concretos de amor, que são o melhor testemunho da misericórdia. Todos somos chamados a tornar-nos escritores viventes do Evangelho, portadores da Boa Nova a cada homem e mulher de hoje. Podemos fazê-lo praticando as obras corporais e espirituais de misericórdia, que são o estilo de vida do cristão. Através destes gestos simples e vigorosos, mesmo se por vezes invisíveis, podemos visitar aqueles que passam necessidade, levando a ternura e a consolação de Deus. Deste modo damos continuidade ao que fez Jesus no dia de Páscoa, quando derramou, nos corações assustados dos discípulos, a misericórdia do Pai, efundindo sobre eles o Espírito Santo que perdoa os pecados e dá a alegria.
Mas, na narração que ouvimos, aparece um contraste evidente: por um lado, temos o medo dos discípulos, que fecham as portas da casa; por outro, temos a missão, por parte de Jesus, que os envia ao mundo para levarem o anúncio do perdão. O mesmo contraste pode verificar-se também em nós: uma luta interior entre o fechamento do coração e a chamada do amor para abrir as portas fechadas e sair de nós mesmos. Cristo, que por amor entrou nas portas fechadas do pecado, da morte e da mansão dos mortos, deseja entrar também em cada um para abrir de par em par as portas fechadas do coração. Ele que venceu, com a ressurreição, o medo e o temor que nos algemam, quer escancarar as nossas portas fechadas e enviar-nos. A estrada que o Mestre ressuscitado nos aponta é estrada de sentido único, segue-se apenas numa direção: sair de nós mesmos, sair para testemunhar a força sanadora do amor que nos conquistou. Muitas vezes vemos, diante de nós, uma humanidade ferida e assustada, que tem as cicatrizes do sofrimento e da incerteza. Hoje, face ao seu doloroso clamor de misericórdia e paz, ouçamos como que dirigido a cada um de nós o convite feito confiadamente por Jesus: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós (Jo 20, 21).
Cada doença pode encontrar na misericórdia de Deus um auxílio eficaz. Com efeito, a sua misericórdia não se detém à distância: quer vir ao encontro de todas as pobrezas e libertar de tantas formas de escravidão que afligem o nosso mundo. Quer alcançar as feridas de cada um, para medicá-las. Ser apóstolos de misericórdia significa tocar e acariciar as suas chagas, presentes hoje também no corpo e na alma de muitos dos seus irmãos e irmãs. Ao cuidar destas chagas, professamos Jesus, tornamo-Lo presente e vivo; permitimos a outros que palpem a sua misericórdia, e O reconheçam «Senhor e Deus» (cf. Jo 20, 28), como fez o apóstolo Tomé. Eis a missão que nos é confiada. Inúmeras pessoas pedem para ser escutadas e compreendidas. O Evangelho da misericórdia, que se deve anunciar e escrever na vida, procura pessoas com o coração paciente e aberto, «bons samaritanos» que conhecem a compaixão e o silêncio perante o mistério do irmão e da irmã; pede servos generosos e alegres, que amam gratuitamente sem nada pretender em troca.
«A paz esteja convosco!» (Jo 20, 21): é a saudação que Cristo leva aos seus discípulos; é a mesma paz que esperam os homens do nosso tempo. Não é uma paz negociada, nem a suspensão de algo errado: é a sua paz, a paz que brota do coração do Ressuscitado, a paz que venceu o pecado, a morte e o medo. É a paz que não divide, mas une; é a paz que não deixa sozinhos, mas faz-nos sentir acolhidos e amados; é a paz que sobrevive no sofrimento e faz florescer a esperança. Esta paz, como no dia de Páscoa, nasce e renasce sempre do perdão de Deus, que tira a ansiedade do coração. Ser portadora da sua paz: esta é a missão confiada à Igreja no dia de Páscoa. Nascemos em Cristo como instrumentos de reconciliação, para levar a todos o perdão do Pai, para revelar o seu rosto de amor nos sinais da misericórdia.
No Salmo Responsorial, foi proclamado: «O seu amor é para sempre» (118/117, 2). É verdade, a misericórdia de Deus é eterna; não acaba, não se esgota, não se dá por vencida diante das portas fechadas e nunca se cansa. Neste «para sempre», encontramos apoio nos momentos de provação e fraqueza, porque temos a certeza de que Deus não nos abandona: permanece conosco para sempre. Demos-Lhe graças por este amor tão grande que nos é impossível compreender. É tão grande! Peçamos a graça de nunca nos cansarmos de tomar a misericórdia de Deus e levá-la pelo mundo: peçamos para ser misericordiosos, a fim de irradiar por todo o lado a força do Evangelho, para escrever aquelas páginas do Evangelho que o apóstolo João não escreveu.
                                             Roma, 03 de Abril de 2016.

terça-feira, 29 de março de 2016

D. José Ornelas Carvalho


                Mensagem de Páscoa 2016


            A aproximar-se a conclusão do caminho quaresmal, preparamo-nos para celebrar a festa maior das celebrações cristãs: o tríduo pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus.
            É um tempo para recordar os acontecimentos fundadores da nossa fé, que continuam a inspirar a nossa existência, a guiar o nosso caminho, a motivar o nosso empenhamento na família, na comunidade cristã, na sociedade onde nos inserimos.
            É sobretudo um tempo de recuperar e renovar a esperança, sem ignorar os problemas dramáticos que nos rodeiam e sem deixar-se submergir por eles. Ao celebrar a morte do Senhor, não podemos esquecer que Ele assumiu voluntariamente o destino de cada homem e de cada mulher, neste mundo: a injustiça dos inocentes condenados à prisão, à miséria, ao desemprego, à via dos exilados e desprotegidos; o sofrimento dos doentes e dos feridos nos atentados e na guerra; a solidão de tantos anciãos abandonados; o desespero dos famintos, das crianças sem carinho, dos que buscam em vão um lugar seguro e digno para viver. Ele assumiu tudo isso sem se resignar ao medo ou ao comodismo, à violência ou à vingança.
            Ele experimentou tudo este drama substituindo a vingança pelo perdão, o ódio pelo amor, a crueldade pelo carinho para com a vida, a arrogância pelo serviço, a miséria pela partilha e multiplicação do pão, o esquecimento pela solidariedade do samaritano que se aproxima e carrega quem foi abandonado à borda da estrada. Não se resignou nem se poupou ao sofrimento e à morte, mas abriu através deles um caminho para a vida, a alegria e a esperança.
            Por isso celebramos a Páscoa, sem esconder sob o tapete do comodismo ou do medo o sofrimento e a morte, mas expondo-os ao sol do amor e do poder de Deus, com o qual é possível construir um futuro novo e jubiloso, nesta terra e na plenitude da vida de Deus.
            Este não é um sonho de quem não abre os olhos aos dramas do mundo, mas a teimosa esperança de quem os assume com amor e dom de si mesmo, na certeza de que Deus, mesmo do sofrimento, do ódio e da morte, é capaz de gerar alegria, carinho e vida.
            É com a certeza desta esperança que desejo a todos uma  PÁSCOA FELIZ, porque o Senhor Jesus ressuscitou.

            Setúbal, 21 de Março de 2016.

                                                             
                             José Ornelas Carvalho
                                Bispo de Setúbal


D. José Ornelas Carvalho


                              CATEQUESES QUARESMAIS
                                                
Catequeses de Quaresma - 6 Setúbal, 2016


A vida – Dom Supremo da Misericórdia         

 (Jo 19,25-37)


Do Evangelho do Senhor Jesus Cristo segundo 
São João

    25    Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe,
         a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas e Maria Madalena.
26      Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava,
       disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!»
27      Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!»
       E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa.
28      Depois disso, Jesus, sabendo que tudo se tinha sido realizado,
       para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!»
29      Havia ali uma vasilha cheia de vinagre.
       Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo,
       chegaram-lha à boca.
30      Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.»
       E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.
31      Como era o dia da Preparação da Páscoa,
       para evitar que no sábado ficassem os corpos na cruz,
       porque aquele sábado era um dia muito solene,
       os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas
       e fossem retirados.
32      Os soldados foram e quebraram as pernas
       ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente.
33      Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto,
       não lhe quebraram as pernas.
34      Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança
       e logo brotou sangue e água.
35      Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas
       e o seu testemunho é verdadeiro.
       E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também.
36      É que isto aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz:
         Não se lhe quebrará nenhum osso.
37      E também outro passo da Escritura diz:
         "Hão-de olhar para aquele que trespassaram".

 Palavra da Salvação.




VI A Vida – Dom Supremo da Misericórdia                 (Jo 19,25-37)

Introdução

            Estamos a encerrar este ciclo de Catequeses Quaresmais, já no ambiente da celebração das festas da Páscoa. É o ambiente apropriado para entender o que significa a Misericórdia de Deus, o dom e os desafios que ela nos endereça. Nesta festa maior da nossa fé, contemplamos o agir de Deus ao longo da história humana. E podemos chegar todos à conclusão do Salmo 136, que a razão do seu agir é a sua ternura, o seu amor misericordioso para com a humanidade: "porque é eterna a sua misericórdia". Foi este salmo que Jesus rezou com os discípulos, no fim da última ceia com eles, antes de se encaminhar para a sua paixão, morte e ressurreição.
            Ao longo das cinco reflexões passadas, centrámo-nos na revelação da misericórdia de Deus revelada na pessoa de Jesus, na sua palavra e sobretudo nos seus gestos. Neles descobrimos o Coração de Deus, que vem ao encontro de cada pessoa, do seu povo e de toda a humanidade, atento e misericordioso particularmente para com aqueles que são mais frágeis e vítimas de descriminação, abandono e injustiça. Nas imagens do pai misericordioso, do samaritano solidário para além de todas as fronteiras, na lavagem dos pés em atitude de serviço afetuoso, na partilha e multiplicação do pão e da vida, fomos descobrindo traços do Coração do Senhor Jesus e uma proposta do perfil de pessoa humana segundo o projeto do Evangelho.
            Concluímos hoje estas reflexões concentrando a nossa atenção no ponto culminante e decisivo da vida de Jesus: o dom total da sua vida, em obediência e identificação com o desígnio misericordioso do Pai e em solidariedade próxima e total com a humanidade frágil e incapaz de vida em plenitude. A conclusão desta vida com o dom do Espírito constitui a revelação suprema da misericórdia divina, que transforma a pessoa humana e lhe permite participar na vida de Deus, colaborando, à imagem de Jesus, na construção de uma humanidade nova.

1.      Confrontados com a cruz de Jesus

            Com o Domingo de Ramos que estamos a celebrar, dá-se início à Semana Santa, a celebração da Paixão, morte e Ressurreição do Senhor. É a festa maior do calendário cristão, herdado já da tradição judaica e celebrada por Jesus, imediatamente antes da sua paixão. Se é verdade que é uma festa da alegria, da primavera, da renovação da vida, a Páscoa comporta igualmente uma dimensão de sofrimento e de morte, que a nossa liturgia celebra, particularmente na quinta e sexta-feira santa.
            Na semana passada, refletindo sobre o dom da Eucaristia, vimos que Jesus vive e interpreta a sua vida, morte e ressurreição, como um dom total ao serviço dos seus discípulos e de toda a humanidade; um dom total de si mesmo, assegurando a sua presença constante que dá vida à comunidade. Não é difícil de entender e aceitar o dom de amor, até ao limite da vida em favor de alguém ou de uma causa nobre. Mas que esse dom em favor d vida tenha de passar pelo sofrimento, a humilhação e a morte, já é mais difícil de entender, especialmente porque o destino de Jesus se apresenta como paradigma da existência humana, frequentemente marcada pelo sofrimento e a morte.
            Não quero apresentar uma discussão filosófica sobre este tema do sofrimento, tão antigo como a consciência humana, mas gostaria de vê-lo a partir do caminho de Jesus através do seu sofrimento e morte concretos. Porque é que Jesus, sendo uma pessoa tão boa e pacífica, foi de encontro a um destino tão trágico de crueldade, abando e morte?
            Uma primeira resposta encontra-se no próprio percurso de vida e da missão de Jesus. Ele veio, enviado pelo Pai, com a missão específica de comunicar aos homens a Vida de Deus e transformar a sociedade à luz desta nova dinâmica: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10). A sua palavra, os seus gestos e as suas ações, particularmente para com os doentes, os pecadores e os marginalizados da sociedade, são sinais desta vida nova que Ele possui e oferece a quem dele se aproxima. Para construir este mundo novo, Jesus propõe um caminho de libertação das pessoas, denuncia formas de opressão, de injustiça, de corrupção, de interpretação rigorista e desumana das leis e sobretudo da Lei de Deus. Tudo isto lhe cria, por um lado, a admiração e estima dos mais desfavorecidos, mas, ao mesmo tempo, a rejeição, oposição e ódio dos poderosos e daqueles que controlam a sociedade em seu proveito e não estão interessados que se mude o sistema que os beneficia. Os Evangelhos dão-nos conta que esta oposição foi crescendo de tom e se tornou em perseguição aberta e em propósitos de morte.
            Jesus teve bem claro desde o início da sua missão, as dificuldade e perigos que iria encontrar, mas, a partir do meio do seu ministério público, tornou-se muito claro que esse confronto teria consequências mortais. Por isso, começou a avisar os discípulos que iam para Jerusalém, que Ele ia ser entregue às autoridades, que ia sofrer muito e ser morto, mas que havia de ressuscitar, passados três dias. Esta consciência de Jesus quanto ao seu destino são fruto de uma clara opção sobre o modo de levar por diante a profunda revolução eu pretendia operar no mundo. Perante a oposição frontal e violenta das autoridades, Jesus tinha três hipóteses:
·                A mais simples era desistir do seu projeto de dar origem a uma humanidade nova. Tinha tentado, tinha dado sinais claros da sua proposta de vida nova e de uma sociedade segundo o projeto de Deus, mas, já que os poderosos ponham em cheque a sua vida, era melhor retirar-se. Mas isso, Jesus não queria, não podia fazer. Seria uma opção cómoda e segura, mas representaria uma completa infidelidade a Deus que o tinha enviado e aos homens que ama. Jesus não vai desistir de cumprir o desígnio de amor do Pai, seja a qual for o preço dessa fidelidade e desse amor.
·                O segundo caminho seria o de responder à violência, com a força e a revolta armada. É o caminho que tomam normalmente as revoluções. Jesus tinha mostrado que dispunha de poder e os discípulos e muitos outros dos seus adeptos esperavam que Ele fizesse uso da sua força divina para vencer os inimigos e impor a justiça e o Reino de Deus, o reinado dos justos. Mas esse caminho, Jesus não o pode tomar, pois seria contradizer radicalmente o projeto do Pai. Seria voltar ainda à lei do mais poderoso que impõe o seu domínio sobre os vencidos. Seria continuar a lei da violência, da guerra, da divisão e do ódio, mesmo que fosse por boas razões. Não, esse é o caminho que Jesus sempre denunciou como o que mais se opõe ao desígnio do Pai e não o vai tomar.
·                Então, se Jesus não desiste nem se retira, se não toma o caminho da luta armada e da violência, ficará à mercê dos poderosos. Deverá pagar Ele o preço da sua revolução. No caminho para o mundo novo há sangue, mas não é o sangue dos inimigos vencidos; é o sangue daquele que ofereceu conscientemente a sua vida, para denunciar a violência e dar origem a um caminho novo de autêntica justiça.
            A primeira razão do sofrimento e da morte de Jesus é, pois, a fidelidade absoluta ao amor: ao amor ao Pai e ao amor pelo homens. Por esse amor feito de misericórdia, mesmo para com aqueles que o perseguem, Jesus coloca-se na disposição de aceitar as dificuldades que a oposição lhe trás, recusando a via da violência, do ódio, da vingança, que sempre destruíram a humanidade. Deus não tem inimigos. Mesmo aqueles que se lhe opõem, que o torturam e crucificam são suas criaturas, seus filhos e Ele sempre espera que regressem.
            A morte de Jesus é, por isso, a maior denúncia da violência, da guerra, do ódio, da vingança. Esse é o tipo de atitudes individuais e sociais que deturpam o relacionamento humano entre as pessoas, causam injustiça, miséria, guerra, destruição, sofrimento e morte. Esse é ainda o princípio da lei da selva, da lei da seleção das espécies, segundo o princípio do mais forte, que não se preocupa com a injustiça, a iniquidade e o sofrimento dos mais fracos. Essa é a única lógica que as autoridades judaicas e Pilatos compreendem: a lógica do poder e da violência. É essa lógica que Jesus recusa e denuncia: "Se o meu reino fosse deste mundo, os meus soldados teriam lutado para que eu não fosse entregue…" (Jo, 18,36).
            Renunciar à violência não significa renunciar a mudar a sociedade, a combater a injustiça, a lutar por um mundo melhor. Jesus não desiste da sua revolução, não se acomoda à corrupção e, sobretudo, não esquece aqueles que são vítimas de opressão e injustiça, ou sofrem sob o peso da vida, da doença, da indiferença dos outros. A sua atitude não é de comodismo, de falta de iniciativa, de resignação ou acomodação diante dos poderosos. Pelo contrário, a sua é uma atitude de total solidariedade para com os mais débeis, pelos que sofrem e aspiram a um mundo melhor. Em defesa deles, Jesus expõe-se, com total liberdade e generosidade, oferecendo a própria vida. Mas fá-lo, por amor e com misericórdia. Não ficou longe, mas aproximou-se da humanidade ferida, como o samaritano do homem caído à beira da estrada, suportou as consequências da nossa violência, corrupção e injustiça submetendo-se aos nossos dramas, para nos libertar deste ciclo infernal de vingança, sofrimento e morte.
            Por isso, só aparentemente se pode designar a atitude de Jesus como a de um condenado, humilhado, derrotado. Ele sabe que a sua vida está nas mãos do Pai, que nunca o esquece. Aparentemente é um vencido, mas, na realidade, é Ele que está abrindo caminhos novos para a humanidade; caminhos de vida, mesmo através da injustiça, do sofrimento e da morte. Quantas pessoas fizeram assim o caminho da libertação de si próprias e dos seus semelhantes: pensemos em Francisco de Assis, em Mahatma Gandhi, em Luter King, em Nelson Mandela, entre tantos outros.
            É importante que aprendamos a fazer evoluir a humanidade de um modo novo, se queremos construir uma sociedade mais justa, mais humana e mais misericordiosa. A cruz de Cristo representa o estandarte desta nova revolução da humanização, da Misericórdia, do amor. Não basta sentir, indignar-se, revoltar-se, dispor-se a lutar. É preciso fazê-lo com amor solidariedade e misericórdia, de contrário reentramos no ciclo vicioso do terrorismo fanático e dos bombardeamentos para impor a ordem, cujo resultado final é o de milhares de mortes inocentes, cidades arrasadas e multidões de refugiados sem proteção, que todos, com razões populistas se refusam acolher. Esta é a primeira e importantíssima lição da paixão e morte de Jesus que assume em si o sofrimento de todos os deserdados da humanidade e nos leva a refletir sobre o seu destino: como é que chegámos a este nível de desumanização?

2.      A Hora da Glória de Jesus e o Dom do Espírito

            Mudar a lógica da humanidade e fazer emergir esse mundo novo – passar da lei da selva para a lei da humanidade e da misericórdia – não é apenas uma questão de mudança de paradigmas sociais e nem apenas a imitação do comportamento de Jesus, embora isso seja absolutamente necessário. É algo de muito mais profundo, é a consequência do dom supremo da misericórdia de Deus, o dom do Espírito, que muda a pessoa humana a partir da sua raiz. Esse dom do Espírito é fruto da morte e ressurreição de Jesus. É por isso que a sua é uma morte salvadora. É esse dom que encontramos na leitura com que começámos esta reflexão. Procuremos entendê-la com alguns pontos fundamentais do quarto Evangelho.
            O evangelista João, desde o início do seu Evangelho, vai dizendo que chegará a "Hora" de Jesus, em que Ele manifestará a sua glória. Nas bodas de Caná, Jesus diz a sua mãe: "Ainda não chegou a minha hora" (Jo 2,4) e, como sinal e anúncio dessa hora, transforma a água em vinho. À mulher de Samaria afirma que "vai chegar a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade" (4,21.23). Aos judeus promete que "vai chegar a hora em que os mortos escutarão a voz do Filho do Homem… vai chegar a hora em que os que estão no sepulcro escutarão a sua voz " (Jo 5,25.28). O evangelista observa, que, nas controvérsias com os judeus, "ninguém lhe deitou as mãos, porque não tinha chegado a sua hora" (Jo 7,30;8,20). Mas, ao chegar a paixão, na ceia com os discípulos, João diz que Jesus está bem consciente de que, agora chegou a "Hora": "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a hora de passar deste mundo para o Pai…" (Jo 13,1). Jesus mesmo assume solenemente esta "Hora": "Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado… Que direi? Pai salva-me desta hora?... mas para esta hora é que eu vim ao mundo" (12,23. 27); "Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho Te glorifique a Ti" (17,1). A "Hora" é, pois, a hora da morte.
            Para Jesus, esta é a Hora da Glória, pois, na Bíblia, a glória de uma pessoa é a manifestação daquilo que ela é na verdade de si mesma. Ora, o ser de Deus, diz o evangelista João, é amor: "Deus é amor" (1Jo, 3,23; 4,4). E a manifestação suprema do amor de Deus é o dom que Jesus faz da sua vida pelos homens, aceitando mesmo o sofrimento e a morte, para lhes transmitir a vida. Essa é a manifestação suprema do amor, a manifestação da glória de Deus. Por isso esta é a "Hora da Glória", porque é a hora da passagem de Jesus para o mundo glorioso de Deus, porque é a hora do dom do Espírito do Pai à humanidade, porque é através de tudo isto que Ele abre, para todos nós, um caminho novo, para além da nossa debilidade, do nosso sofrimento, da nossa morte; um caminho que nos torna filhos e filhas de Deus que não morre.
            Esta é a Hora da Glória, porque é a hora da manifestação suprema do amor e da misericórdia de Deus através de Jesus. Ele não nos salvou porque sofreu muito. Salvou-nos porque nos amou com amor infinito, porque esse amor se transformou em misericórdia, perante a nossa fraqueza, os nossos erros, o nosso pecado. Salvou-nos porque nos regenerou pelo dom do Espírito, associando-nos ao ser e à família do Pai do céu. É isso que o evangelista João narra no texto que proclamámos no início da nossa reflexão e que agora vamos repassar, nos seus momentos principais.

3.      A revelação do dom do Espírito

            São João narra este último momento da vida de Jesus como se fosse a re-criação do ser humano, o início de uma nova humanidade. Esta humanidade deve acabar com as distinções entre os homens, pois as promessas feitas aos judeus, vão ser estendidas a toda a humanidade, com o dom do Espírito. Por isso João dá um grande relevo às palavras de Jesus à sua mãe, que representa o povo de Israel e o discípulo que representa a Igreja, a comunidade de Jesus: "Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: 'Mulher, eis o teu filho!' Depois, disse ao discípulo: 'Eis a tua mãe!' E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa" (Jo 19,26s). Das duas comunidades, Jesus faz uma só, sem distinções, pois todos, a partir de agora, vão renascer a partir do Espírito que Ele vai derramar sobre os homens e mulheres desta terra. Todos vão formar uma única família no Espírito do mesmo Pai, o Pai de Jesus.
            "Depois disso, Jesus, sabendo que tudo se tinha sido realizado, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: 'Tenho sede!'". A sede de Jesus não é simplesmente uma necessidade física de água. Por isso nota João que esta exclamação é para se cumprir totalmente a Escritura. Isto é, Jesus afirma que tudo está consumado, que realizou na terra tudo o que o Pai lhe mandara e manifestara a Sua Glória-Amor aos discípulos. Mas, falta ainda uma parte importante da Escritura para se realizar, que será o dom do Espírito. Quando isso se der, Jesus estará já morto, mas, nesta "Hora", Ele afirma a sua sede dessa água viva que jorrará para dar a vida que não acaba. Essa é a água que Ele prometera à Samaritana: "Quem beber dessa água nunca mais terá sede. A água que Eu lhe der há de tornar-se nele em fonte de água para a vida eterna" (Jo 4,14). É essa água que Jesus anuncia com a sua sede, a água que há de saciar a aspiração de vida de cada pessoa e que só o Pai pode dar. Sem ela, a obra de Jesus não estaria completa. Sem o dom do Espírito, Jesus teria sido uma pessoa extraordinária, teria dado um exemplo inigualável de humanidade, mas não teria trazido nada de realmente significativo para a humanidade, pois continuaríamos sujeitos à debilidade, própria da nossa natureza, limitados pelo muro intransponível do sofrimento e da morte. Na sede de Jesus, manifesta-se a sede de vida e de felicidade de toda a humanidade, ao longo de todos os séculos. Na sua morte, Ele assume a morte de cada um de nós e na sua sede dirigida ao Pai, aponta a água que saciará o desejo de todos os que sofrem, agonizam e sentem fugir a vida, acreditem ou não que a sua sede pode ser saciada.
            Ao grito de Jesus, os soldados respondem oferecendo vinagre: "ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca". O contraste é evidente, mas não quer ser simplesmente emocional, pondo em confronto a totalidade do amor, com a amargura do vinagre. Na realidade, o gesto dos soldados era um gesto de misericórdia. Essa era a bebida que eles próprios tomavam para matar a sede. Mas, mesmo neste gesto de misericórdia para com Jesus moribundo se manifesta que, perante o domínio universal da morte, todos os paliativos humanos são amargos e ineficazes.
            Depois de receber o vinagre dessa magra consolação e de ter anunciado o dom do Espírito, Jesus pode então afirmar que "tudo está consumado"; que realizou a obra que o Pai lhe tinha confiado. E, diz João, "inclinando a cabeça, entregou o espírito". Esta expressão abre-nos à compreensão do sentido da morte de Jesus. Não é simplesmente uma forma de dizer que "morreu", embora aluda também a esse terminar da vida na terra. Jesus entregou o espírito – a sua vida – nas mãos do Pai, pois concebe a morte humana como o colocar nas mãos de Deus a existência que se recebeu ao nascer. A vida humana não está destinada a acabar no nada, pois, nas mãos de Deus ela continua, e continua em plenitude.
            Mas o "entregou o Espírito" tem também um outro significado que se destina a nós. Jesus entregou o "Espírito" – o Espírito Santo – pois esse mesmo Espírito vai ser derramado agora sobre a humanidade como novo princípio de vida. Este é o último e determinante dom da misericórdia de Deus, o legado fundamental de Jesus à sua comunidade. É através deste Espírito que nos tornamos filhos/as de Deus, membros da sua família e participantes da sua vida. É este o princípio da salvação, já nesta terra e para a eternidade.
            É este dom para a humanidade que João contempla, quando um soldado trespassa o peito de Jesus, certificando-se que esteja já morto: "um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água". O evangelista atribui um grande significado a este facto e cita duas vezes a Escritura, para sublinhar o seu significado. Jesus estava já morto; uma morte que significa um dom total de amor, em obediência ao Pai e por amor total aos homens. O sangue e a água, são sinal da vida e do Espírito. Neste último gesto de Jesus sobre a terra, abre-se o seu Coração e revela-se a totalidade do seu amor fiel ao Pai e aos homens. Mas é um amor que se torna fonte de vida para a humanidade simbolicamente reunida aos pés da cruz. É a oferta final e radical do amor transformado em misericórdia. Ao vinagre acerbo do sofrimento e da morte, Jesus responde com o dom do amor e da vida, fonte do Espírito que gera uma humanidade nova.

4.      Aos pés da cruz de Jesus

            Aos pés da cruz, compreendemos muitas coisas sobre a vida de Jesus e sobre a nossa própria existência. Jesus não é apenas um Mestre admirável e sábio, um revolucionário extraordinário e comprometido, um amigo solidário dos homens, especialmente daqueles que sofrem, o sonhador de uma humanidade melhor. Ele é tudo isso e há que voltar constantemente às suas palavras e atitudes para encontrar inspiração e caminho para o nosso mundo. Mas Ele é bem mais do que isso. É Aquele que vem de junto do Pai, que traz uma vida nova, que nós não possuíamos e sem a qual ficaríamos sempre prisioneiros do sofrimento, do pecado e da morte.
            Mesmo o mais justo dos humanos, mesmo os atos mais meritórios, por si só não seriam suficientes para nos subtrair à caducidade da nossa natureza humana. O nosso código genético não nos permite viver para sempre nem nos dá uma sabedoria e uma justiça perfeitas. Para tal, temos necessidade de outro princípio vital de "um gene diferente", que não pertence à realidade deste mundo. João Batista exprime essa realidade ao dizer que o máximo que pode fazer é praticar um batismo de água para o arrependimento do mal e a busca de novos caminhos, mas que isso é insuficiente: "eu batizo-vos em água, mas, no meio de vós, encontra-se aquele que vós não conheceis… ele é o que batiza no Espírito Santo" (1,26ss). E acrescenta: "Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar em água tinha-me dito: 'Aquele sobre quem vires descer o Espírito e nele permanecer, esse é o que batiza no Espírito Santo'. Eu vi e testemunho que este é o Filho de Deus" (Jo 1,32-34). Jesus é igualmente claro a este respeito: "Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne o e o nasceu do Espírito é espírito (Jo, 3,3.6).
            A esta luz entendemos que o dom fundamental, o ato de misericórdia primordial para completar a obra da criação é o dom do Espírito. E o Espírito não é uma conquista, mas um dom do amor e da misericórdia de Deus. É porque Jesus vive desse Espírito que faz as obras de Deus e se entrega em favor da humanidade até oferecer a própria vida. A lança que abre o seu Coração – o último gesto da crueldade humana – revela paradoxalmente a grandeza do amor de Deus, que vem ao encontro da nossa fraqueza. Quando se fala da misericórdia de Deus, temos de ter em conta, antes de mais que ela é, acima de tudo o dom do seu Espírito, que brotou do Coração de Jesus.

Conclusão

            Esse é o Espírito que recebemos no batismo, que nos torna filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs, formando uma comunidade nova, a Igreja, que não conhece barreiras de raça, cultura, nacionalidade ou proveniência social. Esse é o projeto de Deus para a humanidade inteira. Esse é o nosso projeto, hoje, nesta nossa Igreja de Setúbal. Nós nascemos deste dom do Senhor ressuscitado, somos da família de Deus, que nos olha com carinho, mesmo nas situações difíceis da nossa vida; que é misericordioso, mesmo quando ficámos longe e traímos o seu amor.
            Esse é o Espírito que brota do Coração de Jesus na cruz e modela o nosso coração, ensinando-nos a ser filhos/as de Deus, unidos a Ele com gratidão e alegria. Ensinando-nos a ser irmãos/ãs ativos e misericordiosos, como foi Jesus, empregando as próprias energias e a vida na construção de um mundo melhor. Ensinando-nos a estar particularmente ao lado dos mais pobres, como samaritanos solidários para com os que sofrem, são vítimas da injustiça e perdem a esperança. Ensinando-nos a não ter medo de oferecer a nossa vida e as nossas energias, para multiplicar a vida neste mundo e deixá-la confiadamente nas mãos misericordiosas do Pai.
            Aos pés da cruz somos desafiados a fazer escolhas de caminho e de vida. Qual o princípio que norteia a nossa existência: a lei da selva, da seleção das espécies, da vitória dos mais fortes (que não quer dizer dos melhores), que exclui e cilindra os mais pequenos e débeis; ou queremos adotar a lei da misericórdia, do dom, da solidariedade? Queremos tomar o caminho da violência, da vingança, da guerra e da morte; ou assumimos a via do perdão, da reconciliação, mesmo para os agressores, transformando as situações de guerra e de morte em viveiros de reconciliação, de misericórdia e de vida?
            Aos pés da cruz de Jesus, somos convidados a assumir uma atitude pessoal, coerente e criativa, que propõe o evangelista João ao contemplar a fonte da vida:

Hão de olhar para aquele que trespassaram.

E olhando, havemos de ver o resultado da crueldade, da violência, da morte
em que tantas vezes participámos.
Mas havemos de ver também o sinal por excelência do amor,
a fonte do perdão da misericórdia, da vida.





Catequeses Quaresmais verdadeiras
 Escolas de Fé!





D. José Ornelas Carvalho

  CATEQUESES QUARESMAIS
                                                
Catequeses de Quaresma - 5 Setúbal, 2016

Partilhar o Pão
(Mc 6,34-44)

Do Evangelho do Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 34    Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
       e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor.
       Começou, então, a ensinar-lhes longamente.
 35    A hora já ia muito adiantada, quando os discípulos se aproximaram e disseram:
       "O lugar é deserto e a hora vai adiantada.
 36    Manda-os embora, para irem aos campos e aldeias comprar de comer."
 37    Jesus respondeu:
       "Dai-lhes vós mesmos de comer."
       Eles disseram-lhe:
       "Vamos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?"
 38    Mas Ele perguntou:
       "Quantos pães tendes? Ide ver."
       Depois de se informarem, responderam:
       "Cinco pães e dois peixes."
 39    Ordenou-lhes que os fizessem sentar por grupos na erva verde.
 40    E sentaram-se, por grupos de cem e cinquenta.
 41    Jesus tomou, então, os cinco pães e os dois peixes
       e, erguendo os olhos ao céu, pronunciou a bênção,
       partiu os pães e foi-os dando aos seus discípulos, para que eles os repartissem.
       E dividiu também os dois peixes por todos.
 42        Eles comeram até ficar saciados.
 43    E sobraram ainda doze cestos com os bocados de pão e os restos de peixe.
 44    Ora os que tinham comido daqueles pães eram cinco mil homens.

Palavra da Salvação


V
A partilha do Pão
(Mc 6,34-44)

Introdução

            Aproximando-nos da conclusão deste caminho de quaresma, a reflexão deste domingo vai tentar recolher a atitude fundamental que se encontra na base dos sinais que considerámos ao longo das reflexões anteriores: o projeto de Deus para com a humanidade pecadora; o amor do Pai misericordioso, que acolhe e reconcilia o filho leviano; o samaritano solidário com o homem ferido, abandonado e sem ajuda; a denúncia do poder opressor e a proposta do serviço na lavagem carinhosa dos pés.
            Todas estas pedras fundamentais para a reconciliação do mundo, à luz da misericórdia de Deus têm como base o exemplo da vida, morte e ressurreição de Jesus, dom supremo de Deus para toda a humanidade. É um dom que se torna proposta de vida, de partilha de recursos, qualidades e carinho, para matar a fome, eliminar a miséria e criar um mundo novo de dignidade e solidariedade fraternas. Trata-se de uma revolução da maneira de pensar e de agir, que tem com base a narração da multiplicação dos pães e dos peixes, para matar a fome à multidão e se abre à celebração da Eucaristia, presença constante e renovadora do Senhor na comunidade dos seus discípulos. São estes dois sinais do Pão, que constituem o centro da nossa reflexão desta tarde.


1.      Para entender o texto

            No Evangelho de Marcos, a narração da multiplicação do pão insere-se numa altura significativa da vida pública de Jesus. No início do Evangelho, a palavra e os sinais dados por Jesus, com a cura dos doentes e a libertação daqueles que estavam possuídos pelo espírito do mal, atrai grandes multidões de pessoas que desejavam escutá-lo e ser curadas dos seus males.
            Mas, se o seu modo de agir suscitava alegria e nova esperança entre o povo, já para as autoridades era causa de preocupação e de crescente oposição. O seu modo de falar de Deus e da sua misericórdia, a sua atitude crítica para com a imposição de práticas religiosas petrificadas pelo legalismo; a liberdade com que interpretava a tradição dos antigos; a sua frequente companhia com marginais da sociedade; a sua pretensão de agir em nome de Deus… apareciam como manifestações de heresia e perigosa revolução, aos olhos daqueles que controlavam a universo religioso e político de Israel. A oposição começa a assumir formas sempre mais fortes, incluindo ameaças de violência e maquinações de eliminação.
            Jesus inicia então uma nova fase da sua missão. Ele tem bem presente que está a começar um movimento novo no seio do povo e que esse processo vai produzir rupturas, pois muitos e sobretudo os mais poderosos não estão interessados nessa novidade que os põe em causa. Por isso, começa a formar um grupo independente, com aqueles que o seguem, a dedicar mais tempo à instrução desse núcleo da sua futura comunidade e envia em missão à sua frente um primeiro grupo de discípulos pelas povoações onde devia passar.
            É neste contexto de início de uma nova comunidade que, quando os discípulos regressam da missão, se reúne à volta de Jesus uma grande multidão. Mas Ele, acompanhado pelos discípulos, afasta-se num barco, de modo a conceder-lhes algum descanso, pois "nem tinham tempo para comer", como diz o texto. A multidão, porém, vendo para onde se dirigia o barco, apressou-se a correr pela margem do lago e, quando o barco chegou ao seu destino, já lá estava à espera. Diz então o texto que "Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor", mudou todos os seus planos "e começou a ensiná-los longamente", apesar do cansaço de todos.
            É importante reter alguns elementos deste contexto:
a)      Jesus está iniciando um caminho novo com os discípulos e é seguido por uma multidão que procura alternativas para o sistema presente e o olha com alegria e esperança no futuro.
b)      É neste contexto de novidade que surge o ensinamento de Jesus e a multiplicação do pão. É como um gesto fundador, uma partida para um mundo novo.
c)      Jesus está criando um novo povo, que se formará a partir da sua palavra – "e começou a ensiná-los longamente" – e de um gesto igualmente fundacional: a partilha e a multiplicação do pão.
d)      Tudo isto começa com um olhar de misericórdia: "viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor". Esta observação do evangelista dá o sentido a toda a narração, explicando que aquilo que move a ação de Jesus é a com-paixão, isto é, o ver e assumir os problemas da multidão (da humanidade) desorientada com se se tratasse de um rebanho que não tem pastor que dele se ocupe.
            A partir destes indícios podemos dar-nos conta de que a narração de S. Marcos não representa simplesmente o relato de um milagre formidável de Jesus que oferece um piquenique gratuito, para mostrar a sua grandeza e bondade. Trata-se sim de algo muito importante para a situação de necessidade e desorientação da multidão e que se insere no caminho para o mundo novo que ele está a iniciar. Jesus, lançou um desafio, começou uma nova estrada; esta gente sentiu com alegria e esperança o apelo para este novo caminho e foi à procura de Jesus. Ele, que vinha à procura de um tempo de repouso, não se remeteu ao seu merecido descanso, mas foi ter com eles pôs-se a ensiná-los e realizou um gesto que eles nunca mais haviam de esquecer. Esse gesto foi narrado para nós hoje, para que entendamos o mundo novo ao qual somos chamados. Com estas palavras de introdução, entremos então na narração, tentando entendê-la mais de perto.

2.      A Misericórdia torna-se Partilha

            A narração da multiplicação do pão começa, pois, com uma decisiva observação sobre os sentimentos de Jesus para com a multidão: "Encheu-se de compaixão". O ensinar longamente e a multiplicação são duas faces da mesma moeda que é a misericórdia/com-paixão que Jesus sente para com a multidão.
            Os discípulos estão ainda longe desta atitude e não chegam a entender na sua inteireza as ações do Mestre. Entusiasmam-se com a novidade do seu ensinamento, mas não chegam a ligar tudo isso com a vida concreta de todos os dias. Essa não está incluída no "pacote" religioso. Por isso, a certa altura, chamam a atenção do Mestre: Basta de religião, por hoje, "manda-os embora, para irem aos campos e aldeias comprar de comer".
            A resposta de Jesus é o primeiro pilar da sua revolução: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Esta ordem tem a ver, antes de mais, com a com-paixão. Ele não pode mandar embora a multidão, porque sente a fome daquela gente e deseja que os discípulos a sintam também, que não se alienem dos problemas das pessoas que estão à volta. Escutar a Palavra não é apenas um ato piedoso; implica um pacto de solidariedade, de comum sensibilidade e mútua responsabilidade. Esta solidariedade não é uma opção para os discípulos de Jesus; é uma ordem :"Dai-lhes de comer".
            A questão do pão nunca é uma questão individual. Na perspetiva dos discípulos, a comunidade tinha estado reunida à volta de Jesus para escutar a palavra, mas, quando se trata do pão, "que vão (cada um), comprar de comer". A fraternidade tem validade no setor religioso, mas termina quando se trata das questões práticas da vida. Então, para que serve a comunidade de Jesus? Para estómagos fartos? Jesus não quer que a sua comunidade seja apenas um clube fechado, destinado a quem não tem problemas. Pelo contrário, o exemplo que Ele dá é de uma atitude aberta, solidária e disponível; um "hospital de campanha", no dizer do Papa Francisco. A fome que mata milhões de pessoas em todo o mundo não pode deixar de queimar o estómago de quem quer que sinta um mínimo de dignidade humana. Particularmente quem escuta o Evangelho, como discípulo de Jesus, tem de sentir a mesma compaixão misericordiosa do Mestre; tem de assumir um compromisso para com as bocas, os espíritos, os corações famintos de pão, de educação, de companhia, de afeto.
            Os discípulos sentem este apelo e dispõem-se a aceitar a ideia de Jesus, mas começam a deitar contas e ficam desanimados: Nem 200 denários de pão (o equivalente ao salário de 200 dias de um trabalhador) chegariam para dar um naco a cada um…  Este é o segundo patamar da revolução de Jesus. Tanta gente desanima com a enormidade do esforço e dos custos necessários para transformar o mundo e acabar com  miséria. Assustam-se e resignam-se à situação, por medo ou comodismo.
            Jesus é direto, concreto e, ao mesmo tempo, simples: Não perguntem quanto é preciso, vejam quanto têm, com quanto podem contribuir: "Quantos pães tendes? Ide ver". E, quando foram ver, verificaram que tinham "cinco pães e dois peixes". Na Bíblia, o número 7 tem um significado simbólico de totalidade. O que a comunidade apresenta a Jesus pode ser de dimensões reduzidas, mas é tudo quanto tem. Esse é o contributo do grupo para a solução do problema do pão. O evangelista João diz que é um rapazito que oferece os cinco pães e dois peixes. De qualquer modo, a perspetiva de Jesus é muito clara: quando se trata das questões fundamentais da vida, há que apostar até ao fundo: dar tudo. Isso não significa ficar sem nada, significa colocar-se totalmente ao serviço de todos. O menino ou a comunidade, perceberam que não só eles têm fome, mas toda a multidão. Em vez de enveredar pela lógica da solução individual, da preservação dos privilégios dos que possuem, foram pela estrada da partilha e da solidariedade entre todos. Globalizaram a necessidade de todos para globalizar também a busca de solução. É a partir desta abertura da percepção e do coração que o milagre acontece.
            Mas há ainda um terceiro passo, que é decisivo na revolução do pão. Essa totalidade partilhada da comunidade é colocada nas mãos de Jesus. Ele "levantou os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e foi dando aos discípulos, para que os distribuíssem". A bênção pronunciada por Jesus é a que ainda hoje se diz ao partir do pão, à mesa, e soa mais ou menos assim: "Bendito sejas, Senhor, Rei do universo, pelo pão que fizeste brotar da terra para nosso alimento!". É um agradecer/bendizer a Deus pelo dom do pão, que todos recebemos da bondade e liberalidade do Pai do céu. Recebemos de graça este mundo com tudo o que ele contém. Aquilo que chamamos nosso é um dom de Deus. O nosso trabalho é ainda fruto das capacidades que Deus nos deu e que criativamente desenvolvemos. Quando se reconhece esta realidade básica, percebemos que a questão do pão não pode ser simplesmente individual. O "PÃO" – todos os meios de vida – são claramente dons de Deus e Ele conta com cada um de nós para desenvolver, produzir e partilhar com a mesma atitude generosa que Ele tem para connosco.
            Este é o sentido e o desafio do milagre do pão. Quando um grupo ou uma comunidade olha o pão deste modo e coloca aquilo que possui nas mãos de Jesus, ao serviço do seu projeto de solidariedade, dignidade e justiça para todos os homens nesta terra; então não vai faltar o pão para ninguém. Se há fome e miséria, não é porque não haja bens suficientes; é porque alguns acumulam, monopolizam e estragam, deixando outros sem o mínimo necessário. Isto é válido no que diz respeito ao pão para comer, à educação paras os mais novos, do trabalho para os jovens, da saúde para os doentes, do carinho para os anciãos.
            Como família, como comunidade cristã e Igreja diocesana somos chamados a multiplicar assim o pão para os que têm fome. Este é um empenho cheio de consequências, na forma de ver e ordenar a própria vida, de ser honestos, generosos e transparentes e na administração dos bens, de estar ativamente presentes e ativos na vida da comunidade cristã, da sociedade, do mundo.
            Há ainda um detalhe que é importante. Diz o texto que todos ficaram saciados e que recolheram 12 cestos de bocados dos pães e dos peixes. Isto significa que a comunidade não olha apenas para os seus membros, mas que alarga o próprio olhar de misericórdia a todos os outros, fora da comunidade, que têm necessidade. A fome, a miséria, a injustiça não têm credo, nem raça, nem nacionalidade. Têm uma dor atroz, uma necessidade urgente, que apelam à misericórdia, à solidariedade, à partilha.
            Não nos iludamos: se não somos capazes de partilhar com fraternidade e justiça os bens que recebemos de Deus, não somos cristãos, não entramos na revolução do Evangelho. A "contabilidade" diante de Deus, para verificar a seriedade da vida não se faz com os atos religiosos, mas com a misericórdia, a começar dos elementos fundamentais da existência: "tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo… Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeste" (Mt 25,35ss).
            A atitude da multiplicação do pão, da alegria, da vida, não serve apenas para matar a fome aos necessitados. Trata-se de uma revolução que inverte a maneira de pensar. Faz passar da lógica do domínio, da ganância, do roubo, que geram rivalidade, divisão e guerra; à mentalidade do dom, de onde brota partilha, gratidão, solidariedade, comunidade. É o ponto de viragem para o Coração Novo, plasmado à imagem do Coração de Cristo, para a Nova Humanidade segundo o projeto do Evangelho.

3.      O Pão, Corpo do Senhor

            Na última ceia com os discípulos, Jesus volta ao tema do pão, para revelar uma nova dimensão do gesto de partilhar e multiplicar os dons de Deus. Aqui, não se trata apenas de pão e peixe, do alimento necessário e quotidiano, mas de pão e vinho, sinal de um banquete de festa. Trata-se de algo que vai para além da simples subsistência elementar e que se abre a outras dimensões do ser: a festa, a alegria, a celebração do passado e a alimentação do futuro, a expressão pessoal e cultural daquilo que somos, evocamos e sonhamos. Por isso, cada família, cada povo, cada civilização tem o seu modo de celebrar: o dia nacional, o dia da libertação, o dia da memória, da república…
            Celebrar deste modo, não significa simplesmente recordar o passado. Ao celebrar, nós inserimo-nos nessa mesma memória, recuperamos a energia desses eventos do passado, de modo que continuem a iluminar e a configurar o presente e o futuro. É neste ambiente de celebração do memorial da Páscoa, a grande festa da libertação de Deus em favor do seu povo, que Jesus celebra a sua última ceia com os discípulos.
            Jesus junta a este memorial do passado um novo conteúdo: a sua vida com os discípulos, a sua morte iminente e a sua ressurreição gloriosa. Os gestos e palavras sobre o pão e o vinho, têm em conta e exprimem tudo isto: a libertação de Deus ao longo dos séculos, a vinda de Jesus a este mundo, a sua vida, morte e ressurreição e a sua contínua presença futura entre os seus, até ao fim da história humana. É por isso que a Eucaristia representa o centro e o resumo de toda a existência cristã. Sem pretender apresentar aqui a totalidade do mistério eucarístico, vamos tomar em consideração os seus traços fundamentais, que se ligam com o tema da multiplicação do pão.
            Durante aquela ceia, Jesus começou por celebrar com os discípulos, o memorial da Páscoa: a libertação do Egito, a Aliança do Sinai e todas as libertações operadas por Deus ao longo da história, em favor do seu povo. Essa celebração tinha como elemento central o cordeiro pascal, cujo sangue servira para identificar e salvar os hebreus na libertação do Egito. É esta festa que Jesus celebra, pela última vez com os seus discípulos.
            Mas acrescenta agora um novo gesto para celebrar a Nova Aliança, a determinante obra de libertação em favor de toda a humanidade, através da sua morte e ressurreição. Os elementos fundamentais da celebração são o pão e o vinho, que já eram importantes na celebração da Páscoa, mas que assumem agora um significado novo, em relação com a sua vida, morte e ressurreição.
            Ao identificar esse pão com o seu corpo"Isto é o meu corpo entregue por vós" – Jesus assume, antes de mais, a dimensão do pão partilhado e multiplicado, como alimento solidário, que cria um novo estilo de relação, uma nova comunidade. Mas vai muito mais além: aquilo que ele oferece à multidão não é alguma coisa, um recurso, ou capacidade, mas a sua própria pessoa, o seu corpo. Segundo o pensa­men­to hebraico, o corpo não é uma parte da pessoa, contraposto ao espírito ou à alma, mas designa a pessoa toda, enquanto viva e em relação com os outros e o mundo. Ao realizar este gesto, Jesus afirma que o seu ser nesta terra, o seu ser físico, a sua energia e poder, o seu pensar, falar e agir, o seu modo de amar, a sua aceitação da morte e a sua ressurreição… tudo isso é dado em favor dos discípulos e da humanidade que eles representam. E, como Ele não é apenas um homem, mas o Filho de Deus, esse ser divino também se torna dom para a humanidade. Foi esse ser humano e divino que Ele ofereceu e colocou ao serviço dos mais pobres e necessitados ao longo da vida; é esse dom que levará até às últimas consequências na sua morte e ressurreição.
            É importante entender a relação e a superação da multiplicação do pão em relação à Eucaristia. Por assim dizer, Jesus revê-se no dom total da comunidade ou do menino que oferece os cinco pães e dois peixes. Ele oferece-se totalmente e torna-se esse pão de solidariedade e generosidade de Deus para com os homens. Essa solidariedade é fundamental para a revolução que pretende realizar, a fim de que surja um mundo novo. Mas, também esse pão seria apenas um paliativo, se se limitasse a alimentar o estómago, pois seria seguido ainda de outra fome e acabaria sempre na morte. Ao dar-se a si mesmo em alimento para nossa fome de vida, Jesus, como homem e Filho de Deus, nutre-nos de um modo novo, com um pão que alimenta para a vida eterna. Por isso, diz: "Eu sou o pão vivo que desce do céu. Quem come deste pão, viverá para sempre" (Jo 6,51). O que está em causa não é apenas um esforço novo de maior solidariedade, mas o alargamento da vida pessoal e comunitária, segundo os novos horizontes de Deus. É esse o dom que Jesus partilha connosco, através da sua vida, morte e ressurreição. E tudo isso é o que celebramos atualizamos e assimilamos, na celebração da Eucaristia.
            No fim da ceia, Jesus identifica o vinho com o seu "sangue derramado", isto é, com a sua morte. O vinho é, na tradição bíblica, o sinal da alegria, da festa, do amor fiel. Deste modo, afirma que o serviço prestado aos seus, à humanidade, será levado até às ultimas consequências: até à morte, para gerar vida, alegria e festa. Esse é o testemunho do amor fiel de Deus para com a humanidade. Um amor que não se poupa, que não se detém perante qualquer dificuldade, nem diante do sofrimento ou da morte.
            Mas, como acontece com o pão, temos que fazer uma distinção: a morte de Jesus representa, sim, o fim da sua vida sobre esta terra, como para qualquer outro mortal. Mas, Ele sempre falou da sua morte, não apenas como um "morrer", mas como um "ser entregue" e como um "dar a vida". Para Jesus, a morte representa o dom total da sua existência nesta terra, feita um dom para a humanidade. Ele "foi entregue" por Judas como sinal de infidelidade e traição, mas foi entregue pelo Pai, como sinal de amor e como caminho e semente de vida nova, livre da escravidão e da morte. Jesus faz dessa vida um dom total, que se completa até ao seu último suspiro. O pão-corpo e o vinho-sangue são, pois, o maior dom da misericórdia de Deus, que nos comunica a sua própria vida e nos torna seus filhos/as em Cristo.
            O pão e o vinho são para comer e beber. Aquilo que comemos e bebemos, torna-se nossa substância, entra a fazer parte do nosso corpo, dá-nos a energia de que necessitamos. Comer este pão e beber este vinho, corpo e sangue do Senhor, significa tornar nosso o seu modo de ser, como homem e como Filho de Deus. Ao oferecer-se deste modo, Ele diz-nos: aqui vos deixo o meu modo de ser homem, em comunhão com o Pai e com os outros, o meu modo de pensar e de agir, o meu modo de tratar os outros, o meu coração de misericórdia e de perdão, a vida que eu tenho e que não acaba… tudo isso vos dou, para que comais e bebais, para que se torne a vossa energia, para que se transforme no vosso novo modo de ser.
            Deste modo, a Eucaristia é um dom e um desafio, para cada um e para a comunidade que a celebra. É dom porque, através dela recebemos o alimento novo que nos recria como pessoas novas, apesar das nossas debilidades e egoísmos. É esse dom, que é a vida do Senhor, que nos transforma à sua imagem e nos une com comunidade de filhos e filhas de Deus. Por outro lado, o convite a comer e beber representa também um desafio a deixar-se configurar com o modo de ser do Senhor que comungamos, a tornar-nos dom para o mundo, a partilhar o nosso pão, o nosso tempo, as nossas capacidades, o nosso carinho e esperança, para que outros possam entender e aceder à mesma vida de Deus.
            A revolução que começa no sinal e na atitude de partilhar e multiplicar o pão, revela-se, na Eucaristia, como o centro da vida de cada um de nós e de toda a Igreja. Por isso, não é questão um dever religioso a cumprir, de uma hora semanal dada a Deus. Na celebração eucarística, nós escutamos a Palavra de Jesus, somos por Ele acolhidos e acolhemo-nos uns aos outros; pomos nas suas mãos o pão que Ele abençoa, multiplica e redistribui para matar a fome de todos;  abrimo-nos à sua presença, no pão e no vinho, sinais da totalidade do seu dom em nosso favor. Tudo isso nos alimenta, modela o nosso modos de ser e de agir, torna-nos semelhantes ao Senhor que comungamos. Por isso, a Eucaristia é, ao mesmo tempo, o ponto de chegada, mas igualmente o ponto de partida da revolução da multiplicação do pão.

Conclusão

            A reflexão de hoje, conduz-nos ao centro unificador da nossa vida como pessoas, como membros da sociedade humana, como irmãos e irmãs na fé. Esse centro é Jesus, o Senhor, fundamento de uma vida nova, ao serviço de um mundo novo.
            Ele deseja realizar no mundo, em cada lugar e em cada geração, uma revolução que transforme as atitudes e relacionamentos, para mudar o mundo e abrir-nos a novos horizontes de esperança e de felicidade.
            Essa revolução começa com a escuta da palavra e a partilha do pão: o pão para os estómagos famintos; o pão que é o fundamento da vida; o pão da saúde, da educação, da solidariedade, do carinho, da esperança; o pão que alimenta, até para além do sofrimento e da morte. Abrir-se para partilhar o pão com os que precisam é a base desta revolução. Sem essa atitude de partilha, não podemos ser chamados discípulos de Cristo. É a partilha daquilo que possuímos, do tempo e das capacidades que temos, do carinho e da esperança que recebemos com a fé… é esse dom de nós mesmos que constitui o primeiro testemunho do Evangelho, a atitude nova para a construção de uma Igreja nova, de um mundo novo.
            Esta atitude modela-se e alimenta-se continuamente na Eucaristia, atualização da vida, morte e ressurreição do Senhor Jesus. Aí celebramos o dom total da sua vida oferecida por nós e para nós. Comendo o seu pão, bebendo o seu vinho – seu Corpo e seu Sangue – somos recriados à sua imagem e tornamo-nos também dom para os irmãos/ãs e o mundo.
            Por isso a Eucaristia não pode ser separada da vida, pois é a vida que ela pretende celebrar e transformar. Não tem sentido partilhar o pão da Eucaristia, sem partilhar e multiplicar o pão para a multidão que tem fome. Por outro lado, se não se aceita o pão da vida em plenitude que só Jesus nos oferece, todo o pão que podemos repartir saberá a pouco e a vida que ele gera ficará sempre limitada pela morte.
            O mandato de Jesus aos discípulos, de continuar a celebrar a Eucaristia em seu nome não se refere apenas à celebração do rito, mas a receber dele o dom da vida, com tudo o que ela contém e a fazer da nossa vida, assim transformada, um dom para os outros. É assim que acolhemos, com coração aberto, grato e disponível o mandato do Senhor Jesus:

Fazei isto em memória de mim!




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